Além do Emprego
Versão integral da palestra proferida em 03 de Dezembro de 2002 pelo Fundador e Presidente do Grupo Accor no Brasil e Diretor-geral da Accor América Latina, Firmin António, aos profissionais da imprensa da VI Turma do Master de Jornalismo para Editores.
Agradeço ao Prof. Di Franco e à equipe do Master de Jornalismo para Editores por esta oportunidade que me deram para conversar com vocês sobre Empresa e Responsabilidade Social.
Exercício delicado, porquanto não sou um "expert" no assunto específico de "Responsabilidade Social", no sentido do 3º Setor. E, também, porque vocês exercem a profissão dos meus "sonhos ocultos" (explicarei mais tarde esta questão do sonho oculto de um dia ser jornalista...).
Voltando ao tema das Empresas e Responsabilidade Social, vasto e intrigante, tive a chance de criar há 26 anos, aqui no Brasil, um Grupo que tem a preocupação social na essência do seu negócio.
A Accor atua no ramo de Hotéis, Viagens e Serviços.
É pioneira na criação de produtos e serviços, como o Ticket Restaurante e Alimentação, que melhoraram diariamente a qualidade de vida de milhões de trabalhadores urbanos e suas famílias, antes usuários de marmitas. Mas, também, porque reinventou o serviço de Restaurantes de Empresas, antes chamados de cantinas. Hoje, são cerca de 1.200 restaurantes produzindo e servindo ½ milhão de refeições religiosamente, a partir do meio-dia de cada dia que Deus faz...
Mas, também, porque revolucionou o setor de Hotelaria. Temos hoje 120 unidades hoteleiras de todas as categorias, de 5 estrelas até 1 estrela, para cada gosto e para cada bolso, em mais de 40 localidades do Brasil. Serão cerca de 200 hotéis em 2005, já que abrimos a cada ano entre 20 e 25 novas unidades (quase 2 por mês...).
Só na categoria Econômica (Ibis/Formule 1), serão 50 unidades, tendo a primeira sido inaugurada em 1999 (oferecer hotéis modernos, de R$50 à R$70, ou seja, de US$15 à U$20 a diária, faz parte da nossa estratégia...). Temos atividades espalhadas por todo o País, em cerca de 4.000 Municípios deste vasto território...
Empregamos pessoas de todos os estratos sociais, de todas as profissões, de escolaridade diversa, do básico ao MBA. Nós temos muito orgulho dos empregos que geramos: 26.700 empregos precisamente, em 26 anos de atividade neste País. Uma média de 2.000 novos empregos por ano, nos últimos 5 anos.
Temos uma Universidade Corporativa há 10 anos, a Academia Universidade de Serviços, que forma pessoas para o trabalho e para a vida e que, em 2002, está ensinando cerca de 19.000 colaboradores através de seus programas, tanto técnico, quanto de cultura empresarial.
São pessoas com a "cara do Brasil", na sua maioria simples, mas com uma enorme vontade e prazer de SERVIR. Algo que não se vê em muitos outros lugares do planeta. Este é um Capital, um ativo, uma força que o Brasil tem, natural, disponível, à espera de quem o souber valorizar, de quem lhe dê trabalho e desafios.
Provavelmente, o único Capital com garantia de retorno permanente. Gente positiva, que quer participar e ser Incluída neste País de Exclusão, perigosamente EXCLUDENTE, diria...
Estou querendo dizer-lhes que, como Empresário e como Indivíduo, considero que o exercício da Responsabilidade Social está no DNA das Empresas, além de implícito na sua Constituição formal, de acordo com a Lei.
Senão, por que o principal documento de constituição de uma empresa se chamaria CONTRATO SOCIAL? Senão, por que o 1º artigo desse contrato se chamaria OBJETO SOCIAL?
OK, as realidades na prática são muitas vezes diferentes. Fruto talvez da Economia Global, dos blocos econômicos em pé de guerra, do imediatismo das Bolsas de Valores, do vale-tudo da manipulação dos Balanços, dos lucros exorbitantes do sistema financeiro, etc., etc.
Tantas agressões à finalidade empresarial original, que levam ao terrível desespero de quem perde ou de quem não encontra emprego. Ou pior, de quem vive o emprego como um lugar de frustrações, em vez de esperança e de progresso pessoal e social como deveria ser. Como o mundo mudou e evoluiu, se sofisticou tecnologicamente, de um lado, mas como também virou humanamente indigesto, duro e implacável, por outro lado.
Esta é uma ERA de Criatividade e Inovação extraordinárias. Mas, também, uma ERA de Imediatismo e de Exclusão que faz medo.
Mas o Homem, e os Empresários em primeiro lugar, descobrirão que a fórmula do progresso nesta sociedade do conhecimento está na Inteligência e no valor do Trabalho. Portanto, nada mais lógico que o despertar das Empresas para o patrimônio humano e o conseqüente revigoramento da responsabilidade social, de par com a criação de riquezas.
Eu sei que muitas empresas apoiam projetos sociais belíssimos. Nós mesmos, na Accor, participamos de alguns. No entanto, sabemos que há ainda muito por fazer. Mas, particularmente, tenho a convicção de que é na própria empresa que se consolida a causa social. A empresa deve ser uma célula de inclusão.
Penso que a empresa não representa apenas emprego e salário. Nela, as pessoas acalentam sonhos, porque ambicionam ser bem sucedidas. Nela, as pessoas projetam o seu futuro e se põem a enfrentar desafios e assumir responsabilidades. Cabe à empresa consciente do seu papel social motivar e reconhecer os seus colaboradores. E essas ações, aparentemente muito simples, operam milagres.
Temos muitos exemplos em nosso Grupo de pessoas que não tinham perspectivas de futuro no local onde moravam e que, em função da chegada de um hotel Accor, despertaram para um mundo pleno de oportunidades e, principalmente, de autoconhecimento, auto-estima.
Na Costa do Sauípe, na Bahia, por exemplo, temos algumas histórias para contar. Criamos 600 empregos diretos nos nossos dois hotéis Sofitel, para pessoas da comunidade local, Mata de São João, agricultores e pescadores na sua origem. Conosco, receberam treinamento e formação para o trabalho. Foram tocados pela magia do turismo e se transformaram. Aprenderam um ofício que os habilita a um emprego num dos setores que mais cresce na Bahia, o turismo, e hoje têm mais empregabilidade. Um garçom que pode se transformar num maître, quem sabe gerenciar um restaurante e, no futuro, ter seu próprio negócio.
Uma evolução a partir da empresa, com mais segurança e confiança.
É por esta razão que afirmo que a empresa deve ser uma célula de inclusão.
A empresa pode e deve ir além do emprego, possibilitando a inclusão social do trabalhador através do aprendizado empresarial.
Que oportunidade única não tem um indivíduo na organização que lhe explica o que ele faz, por que faz e para que faz? Que lhe permite participar de negociações, trocar conhecimentos e experiências, trabalhar em equipe? Que lhe dá espaço para decidir, para ambicionar novos postos, para querer se desenvolver ainda mais?
Eu diria que é na empresa que o excluído social do século 21 tem a oportunidade única de aprender a importância do relacionamento interpessoal. Mas, aprende também noções práticas de coisas que, se para nós parecem óbvias, são profundamente significativas e modificadoras para os menos favorecidos: noções de higiene, de nutrição, de boa aparência, e de cidadania, por exemplo.
E o ambiente da empresa, no qual o indivíduo passa a maior parte do seu dia, também se permite ser fonte de lazer, de cultura, de troca de informação, de equilíbrio entre trabalho e vida.
Assim, além do emprego, a empresa pode contribuir para uma melhor compreensão da vida, maior aproveitamento do conhecimento e ainda ser veículo dessas transformações profundas, ao partilhá-las com a família e a sociedade.
Trata-se de um processo multiplicador no qual acredito e tenho a felicidade de vivenciar com nossos 26.700 colaboradores, em um projeto de vida da Accor, que nós chamamos de Projeto de Empresa.
Nosso Projeto de Empresa vem sendo construído ao longo de nossa história. Aliás, ele está em constante processo de construção, embora com este nome seja identificado desde 1999.
Ele é o nosso guia de inclusão social e se sustenta em três eixos: People, Service e Profit.
People refere-se às pessoas que trabalham conosco e para as quais queremos ser um ótimo lugar para trabalhar.
Service diz respeito aos nossos clientes, aos quais queremos servir sempre melhor, com o jeito Accor de servir.
Profit é o eixo dos acionistas, para quem visamos rentabilidade crescente, porque pleiteamos reinvestimento constante: na empresa, nos colaboradores e em benefício dos clientes.
Na Accor, todas as decisões levam em conta esses três eixos, porque são interligados e interdependentes.
Em resumo, o Projeto de Empresa é o nosso norte e, para praticá-lo e aprimorá-lo, temos nossa Academia Accor, sobre a qual já lhes falei. Eu poderia me estender muito mais, mas acho que não é o caso.
Para encerrar, quero comentar uma curiosidade. Quando comecei a reunir elementos para me preparar para esta conversa, deparei-me com uma informação muito pertinente.
Em 14 de abril deste ano, o Caderno de Empregos de O Estado de S.Paulo publicou uma matéria da jornalista Terciane Alves, com o título "Michigan aponta dez questões que atormentam gestores no mundo". Ao ler o texto, fiquei sabendo que a Universidade de Michigan realizou uma pesquisa internacional e ouviu 1.969 profissionais dos continentes americano, asiático e europeu.
Segundo a pesquisa, a primeira grande questão a atormentar empresas em qualquer parte do mundo é ATRAIR, DESENVOLVER E MANTER PESSOAL BOM.
Posso garantir a vocês que essa questão continua sendo a mesma, já faz algum tempo.
Por isso, eu diria que, para atrair, desenvolver e manter pessoal bom, o grande avanço reside justamente no exercício da responsabilidade social, encarada sob um novo prisma.
Mudar de atitude, olhar para dentro da empresa, detectar as necessidades dos colaboradores e, junto com eles, traçar e trilhar novos caminhos, é extremamente desafiador. E, por isso mesmo, absolutamente mais compensador. Para o indivíduo, para a própria empresa, para os negócios, para todo mundo. É o que perseguimos na Accor.
Com essas reflexões, espero ter contribuído de alguma forma para que vocês que formam a OPINIÃO se interessem por aprofundar ainda mais esta questão, qual seja:
vQual Instituição exerce a mais benéfica influência na Sociedade: A Escola, A Igreja, A Política, ou A Empresa?
Se um dia me aposentar, ou se um dia me aposentarem, eu vou querer ser formado em Jornalismo, para escrever sobre a relevância do papel das Empresas na Sociedade Moderna.
Mas, também, sobre suas carências, miopias, excessos, desperdícios, falhas e desvios à sua missão, desvirtuamento da sua finalidade como células da economia e da sociedade, por se esquecerem do seu OBJETO SOCIAL. Porque seus "líderes", em algum momento, se esqueceram que a empresa só é ÚTIL e DURARÁ, se equilibrar a sua Responsabilidade Econômica (lucro) c/a sua Responsabilidade Social (a Integração).
Intuitivamente, se quiserem saber, no que tange ao Brasil, acredito que o próximo Governo terá mais sensibilidade para a relevância do papel social e Integrador da Empresa (em vez da relevância até agora vista do seu papel de veículo de arrecadação de Impostos...).
Penso que o próximo governo acreditará que a PRODUÇÃO SALVARÁ o BRASIL, (a frase não é minha, mas sim de Luiz Inácio Lula da Silva). Porque as Empresas, elo forte da relação Capital/Trabalho, exercerão enfim seu poderoso papel integrador de uma sociedade, se devidamente apoiadas e valorizadas.
Para tal, este País não precisa só de bons Empresários, socialmente responsáveis.
Precisa, também, de bons Políticos e de bons Jornalistas: que questionem, que critiquem, não os erros dos que tentam avançar, mas a "INÉRCIA" dos que impedem o País de MUDAR, de derrubar seu extravagante emaranhado de AMARRAS, de se tornar um País SOLTO e FLEXÍVEL, DINÂMICO e COMPETITIVO, capaz de lidar SEM COMPLEXOS com a ABERTURA AO MUNDO EXTERIOR.
É lá, em contato com os países da "1ª Divisão Econômica, Social, Cultural, Digital etc.", que tanto empresas quanto a sociedade empreenderiam mais do que em contatos com Brasília. Nessa troca "ganha-ganha", nesse intercâmbio sem complexos, a sociedade brasileira como um todo faria o SALTO QUALITATIVO no escasso tempo que lhe resta para desarmar a "bomba-relógio" da EXCLUSÃO E DA FALTA DE CONFIANÇA E DE ESPERANÇA.
Entretanto, e qualquer que seja a VISÃO POLÍTICA, ou a eficiência da PRESSÃO DA SOCIEDADE por MUDANÇAS PROFUNDAS JÁ, faço um apelo à moda dos ecologistas: "SALVEM AS EMPRESAS..."
Só elas, em qualquer cenário, garantirão o tal desejado CRESCIMENTO. Só elas criarão os empregos dos quais vivemos. Só elas pagarão os Impostos crescentes necessários à sobrevivência dos sistemas de Saúde, Educação, Aposentadoria etc.... Por isso, acredito que, de todas as reformas e, nomeadamente aquelas que reduzam a médio prazo: o tamanho do Estado e de seu custo; a carga fiscal sobre a produção; o custo do dinheiro etc., a Reforma que a Curto Prazo seria mais simbólica para mim seria a da Legislação Trabalhista, arcaica entre as arcaicas...
por Firmin António
Fundador e Presidente do Grupo Accor no Brasil e Diretor-geral da Accor América Latina
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