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| Palavra do Presidente |
Turismo: Sem Soluções Mágicas
Versão integral do editorial do Fundador e Presidente do Grupo Accor no Brasil e Diretor-geral da Accor América Latina, publicado na edição N o 10 de Maio 2004 da revista Fórum de Líderes Empresariais.
Não há dúvidas quanto ao potencial do Brasil como destino turístico. Há uma enorme variedade de ecossistemas repletos de belezas naturais; temos nos centros urbanos uma cultura com personalidade própria , que desperta interesse e fascina o visitante e a infra-estrutura está cada vez mais profissionalizada - nesse particular, o Grupo Accor contribuiu significativamente para tal com seus 120 hotéis , com cerca de 18000 apartamentos - além do câmbio favorecer o turista. Também não há dúvidas de que a expansão do turismo beneficia o Brasil do ponto de vista econômico e social, já que se trata de uma atividade que gera divisas e empregos . Ademais, já houve um reconhecimento formal, por parte do Governo Federal, da importância estratégica do turismo na matriz de desenvolvimento do país, com a criação de um ministério exclusivo para esta atividade.
Diante de tanta unanimidade, resta perguntar: por que o Brasil, continua como a 34 o preferência turística no mundo, respondendo por ínfimos 0,53% das chegadas de turistas do mundo segundo a OMT? Por que ainda estamos tão distantes de sermos o destino turístico do Século XXI?
Apesar de termos um bom Plano Nacional de Turismo, a política global seguida pelo governo não disponibiliza os meios para a sua implementação. E este é, para mim, o principal fator que nos impede de passar da indignação para a ação . Talvez, esta ausência de foco explique a incoerência entre o discurso e a prática. Embora considere o turismo como eixo estratégico para geração de divisas e para a criação dos tão falados 10 milhões de empregos, a nova regulamentação do PIS/COFINS , por exemplo, penaliza sobremaneira esta atividade de serviços. Em vez de lhe proporcionar os meios para o seu desenvolvimento, o Governo os retira desta que é a mais poderosa indústria de criação de empregos no mundo!
Só na hotelaria, o aumento da carga tributária direta será de 20% . Mesmo com todos os esforços voltados para o aumento da eficiência das operações e a redução de custos, haverá uma inexorável compressão das margens , com as quais remuneramos os investidores que apostaram no crescimento da atividade e financiaram a modernização do setor. Como convencê-los a continuar apostando no Brasil, criando empregos e oportunidades para os brasileiros? Como manter uma remuneração competitiva que atraia e mantenha o talento humano tão necessário para o desenvolvimento do nosso parque hoteleiro e da oferta turística de qualidade em geral?
Ao contrário de inúmeros segmentos de atividades do país, que sofrem por atuar em mercados saturados , o turismo ainda reserva enormes oportunidades de crescimento para grandes e pequenos investidores, para autônomos e empregados, para a população economicamente ativa do Oiapoque ao Chuí. É uma atividade que movimenta, nada menos, que 52 segmentos da economia . Não se entende, portanto, porque penalizá-la com aumento de impostos, já que o governo isentou outros setores , que não são necessariamente mais relevantes do ponto de vista econômico e social. Se ao menos este aumento da carga fiscal fosse revertido em benefício do próprio setor...
Apesar desta incoerência, ocupar hoje uma tímida colocação na preferência do turista estrangeiro, não deve gerar frustração, mas reação. É hora de agir, para produzir uma mudança de mentalidade em todos os níveis: criar um imenso "mutirão" que envolva todos os protagonistas desta enorme engrenagem, que vai da Presidência da República ao motorista de táxi, passando pelas embaixadas, pelos "Convention Bureaux", pelas escolas, pelos garçons de restaurante, pelos bilheteiros dos museus, pelos policiais federais nas filas dos aeroportos etc. Devemos rever a legislação trabalhista tornando-a mais flexível, de forma a se adequar ao ritmo e às necessidades específicas deste setor. Devemos capacitar o transporte aéreo dedicado ao turismo, para que possa absorver a demanda atual e futura. Todo o trabalho de promoção e viabilização do nosso receptivo está sufocado e paralisado no gargalo do transporte aéreo. Devemos reorientar parte dos grandes programas de financiamento, de novos empreendimentos turísticos para:
- O aumento da capacidade de transporte aéreo dedicado ao turismo;
- A melhoria da infra-estrutura rodoviária que viabilizará viagens mais baratas;
- A organização de "clusters" regionais de turismo entre empresas, entidades representativas e poder público, voltados à organização e mobilização do setor e à formatação, viabilização e promoção dos seus produtos;
- A forte divulgação e a promoção dos nossos destinos e produtos turísticos no mercado interno e externo, com escritórios de representação nos principais mercados emissores;
- O incentivo e o financiamento das férias familiares potencializando o enorme mercado brasileiro;
a melhoria da segurança no país, ou, pelo menos, nos corredores turísticos;
- O estímulo à capacitação profissional e à modernização das milhares de pequenas empresas, que atendem os turistas quando eles chegam ao seu destino: bares, restaurantes, táxis, locadoras de carros, lojas, excursionistas, etc. Os verdadeiros heróis do turismo brasileiro
Costumo usar uma imagem que gosto de chamar de a fórmula do sucesso. Ela é bastante simples:
Razão + Emoção = Lucro.
No caso do Turismo, esta fórmula incluiria as seguintes variáveis:
- A razão é a plena utilização de todos os meios - políticos, econômicos, culturais e profissionais - para "vender" o Brasil como destino turístico predileto do século 21. Penso que o Brasil já possui o mínimo essencial para uma oferta turística internacional ou doméstica, de lazer ou de negócios . Claro que ainda falta muito para atingirmos o nível de excelência de outros países. Mas, se começarmos a investir já de forma mais decidida num projeto de longo prazo , sairemos rapidamente deste impasse, pois a oferta se adapta à demanda. E, à medida em que o círculo virtuoso se formar, o poder público e os atores do turismo saberão responder com mais infra-estrutura e com mais e melhores serviços;
- A emoção é o charme, a atratividade do Brasil que é imensa. É tanta que supera todas suas fraquezas. Além disto, a imagem do Brasil melhorou. O País é alvo de notável aceitação no mundo inteiro. Devemos agarrar essa oportunidade. Como atores do turismo, temos a obrigação de tirar o máximo desse momento favorável;
- O lucro , como em todo negócio, é uma questão de merecimento . O turista seja brasileiro a trabalho ou férias, seja estrangeiro a negócios ou a lazer, quer felicidade e está disposto a pagar por isso , remunerando assim nossos investimentos e nosso trabalho e fazendo desta forma crescer a nação como um todo.
É preciso, contudo, que não somente os dirigentes, mas também os trabalhadores do turismo sintam orgulho de servir neste "métier". Esse será o maior diferencial do turismo brasileiro: "a gentileza e o prazer de servir de sua gente" .
Todos os que querem sobreviver ou "superviver" no turismo, tem que ter em mente que esta é uma indústria que se desenvolve a longo prazo e que não há milagres nem soluções mágicas que possam substituir um trabalho determinado, profissional, constante e com uma clara visão do que queremos ter como futuro.
Assim, a tática vencedora no curto, médio e longo prazo é a de jogar no ataque, em três frentes: vender o "Turismo Brasil" no Mundo, no Brasil e... em Brasília.
por Firmin António
Fundador e Presidente do Grupo Accor no Brasil e Diretor-geral da Accor América Latina
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